quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Sobre nosso corpo

Eu sou a terceira, da menor para a maior.
 Hoje eu estava assistindo ao programa da Fátima Bernardes e o assunto era sobre quem reparava mais nas celulites das mulheres: elas ou eles. Dentre os convidados para o debate estava uma linda modelo plus size que é super feliz com seu corpo e tudo o que ele oferece e também uma fitnessholic, enfim, uma mulher que é louca por academia e procedimentos estéticos e nunca vai à praia, porque o biquíni revelaria tudo o que ela mais quer esconder. Nesse ínterim, me peguei pensando nas várias situações em que eu fiquei com raiva do meu corpo. Sabe, eu valorizo tão pouco essa estrutura que carrega meus sentimentos! São vários poréns que eu encontro para não me amar tanto quanto deveria: me acho magra, sem curvas, manchada, pele áspera... E para completar eu ainda gosto de me mutilar psicologicamente passando algum tempo no Instagram e no Facebook, olhando os corpos perfeitos dos outros. Apesar de saber que existem filtros e editores, às vezes eu mesma me coloco para baixo. E muita gente diz que eu não deveria. Eu estou dentro e fora dos padrões ao mesmo tempo, isso me enlouquece. Eu queria pertencer ou não, sem o meio-termo. Eu sou magra, altura mediana. Isso é padronizado. Eu também sou negra e meu cabelo é crespo. Isso não é padronizado. E dentre as negras do grupo fora dos padrões (fiquem abismados) há padrões. "Nossa, por que você não usa seu cabelo black power?", "Nossa, seu cabelo poderia ser enrolado tal qual um fio de telefone", "Nossa, eu não acho que você seja negra, sua pele é bem avermelhada para isso". Às vezes eu queria engordar um pouco e simplesmente meu metabolismo não colabora ( eu como muita batata doce). Também já quis entrar na academia ( entrar no padrãozinho), para que minha bunda crescesse, e quiçá meus peitos também. A cobrança é horrível, já que eu sou brasileira. Era para eu ser daquelas mulatas perfeitas, mas já viu né?Não sou assim. Eu acho que a parte pior é não me sentir desejada por ninguém. É fato que a maioria dos meus amigos nunca se sentiria atraída por mim, já que são homossexuais, mas e a minoria? Eu tenho algumas amigas que contribuem para a piora da situação: gostam de sair para que as pessoas desejem seus corpos. É sério, saem fabulosamente produzidas e com roupas justas e curtas. Elas já são bonitas naturalmente, acho que deveriam sair de uma forma confortável para que não precisassem se preocupar tanto com os seus crushes. E quanto à mim, talvez eu que devesse sair com essas roupas justas, porque eu saio confortável e ninguém me nota. Alguns dizem que eu sou muito fechada e é por isso que ninguém chega em mim. Isso me entristece, porque foi dito por pessoas próximas, com as quais eu sou mais natural. Meu cabelo não é daqueles cacheadões maravilhosos, são cachos tímidos e discretos. Meu corpo é uma coisinha esguia, sem curvas marcadas, eu também tenho cicatrizes e marcas de acne. Às vezes sinto dor. Às vezes sinto aconchego. Eu tenho uma amiga que é plus size e ela é complexada com o corpo dela, porque é gorda. Mas ela já ficou com tantos caras! Talvez eles prefiram mulheres mais curvilíneas. Eu não sou assim, mas acho que não mereço ficar sozinha. É meio preocupante isso, porque eu tenho 17 anos e deveria estar me preocupando com crushes, mas como eu não sou crusha de ninguém... Sabe o que me preocupa? A solidão das mulheres negras ( leia mais sobre isso aqui). Mais de 52% da mulheres negras estão sozinhas. Ninguém quer assumir uma relação conosco.Outro ponto é que minha mãe se preocupa tanto comigo, se eu andar na rua de noite, e eu não vejo motivo. Quem mexeria comigo? Apenas loucos mesmo. Você vê? Tudo o que eu quis dizer aqui é que os padrões me acorrentam por fora e por dentro. Eu não sou livre. Dizem que sou, mas eu não sei controlar minhas emoções, meus sentimentos para comigo. Será que seu fosse para a África do Sul, eu seria considerada bonita? Ou os padrões chegaram lá primeiro?Por que o externo importa tanto para mim? Nós estamos no país mais miscigenado do mundo e há padrões. Eu tenho medo. Era para eu ser o mais bonita possível com 17 anos. Era para eu ter os namoradinhos que minha avó-índia tanto pergunta. E eu não tenho ninguém, nem a mim mesma. Muitos anciãos sábios dizem que é tudo baseado em tempo e local certos. Eu quero formar uma família e sonhar junto. Encher o meu tanque do corpo. Você conhece a metáfora que diz que somos feitos por 3 tanques? Uma para o corpo, um para a alma e um para o espírito. Se você está mal, significa que os tanques estão fora de equilíbrio entre si. Percebe-se que o meu tanque do corpo está em seu volume morto.
É quase eu.

Eu definitivamente não sou assim, e é por isso que muitos estão decepcionados.
Adequado à situação.

Um comentário:

Anna disse...

Nossa amiga...